terça-feira, 10 de agosto de 2010

Auto (sufi)ciência

João Augusto Seraphião não tinha aumentativo só no nome.

Para ele, e para quem fosse um pouco mais sensível, possuía uma alma superlativa.

Com duas academias incompletas, em Medicina e Direito, bacharelou-se em Filosofia.

Romântico, os hábitos boêmios e notívagos renderem-lhe fama, a de vagabundo.

Ao longo dos seus trinta e pucos primeiros anos, não tinha uma noite que deixava de ser visto na Cinelândia, Lapa ou Vila Mimosa, uivando como lobo e balançando como pêndulo.

O troco da vida foi o insucesso profissional e a falta de mulheres, direitas.

Aparentando 60, aos 43 anos vendia bujingangas paraguaias da China na Av. Presidente Vargas, próximo à Candelária. A venda de canetas e lapiseiras era seu forte, clientes de escritório.

Trabalhava em uma pequena banca, própria, ia como brinde, para quem lhe simpatizasse, filosofias de bolso. Pequenas frases que induziam à reflexão, um Twitter dos anos 1980.

Duas pessoas, em particular, levavam as suas sempre que iam à banca: uma linda senhorita, de longos cabelos negros, óculos e nariz esculpido a mão e outra, de cabelos longos, só que mais claros, alta, face de Brabie, que não lhe apetecia tanto quanto a outra.

Aliás, não sei porque essa última entrou na história.

Pois bem, sua essência sonhadora (e outros motivos), o deixava sempre atento à passagem da morena de belo nariz. Sempre despojadamente vestida mas altiva e com uma pressa que presumia um rotineiro atraso.

Dias após vender uma recém lançada caneta dez cores para a sua musa, João foi cobrado por uma nova cliente que acabara de adquirir um jogo Tetris para seu filho: “Vem cá? E o meu papelzinho? A Margarida comentou que ganhou um quando comprou a caneta com o senhor...”

O nome dela era Margarida. Não era lá um nome de musa, mas passou a ser.

Foram duas belas notícias. O nome dela era Margarida que gostava do que ele escrevia.

Naquela noite não dormiu de ansiedade: quando Margarida voltaria a comprar algo na banca?

Não tardou. Margarida precisou retornar, pois achou o cheiro de tuttifruti da caneta meio infantil, comprou outra sem aroma.

João, em conjunto com o troco, deu mais um bilhete à Margarida e não era uma de suas filosofias.

Margarida o abriu ali mesmo e, ao terminar de ler, olhou sério para dentro da cara do João e disse, sem pestanejar: “Vai te catar, coroa filho da puta!”

No dia seguinte a banquinha do João foi para a Avenida Rio Branco, lá o movimento parecia ser melhor.







MÚSICA A CALHAR:
"Quem quer ser mais do que é, um dia há de sofrer" (Roda - De Gil por Elis)

8 comentários:

Flavia Medeiros disse...

excessivamente verossímil.

Bianca Borges disse...

Boa Victor!!Muito Boa!!Adorei!!

Victor Athayde disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Victor Athayde disse...

Margarida (ou sua filha) ainda passa por lá, vi hoje!
(detalhe: a verificação de palavras sapecou um "broto" aqui, rsrs)

Lilla Monteiro disse...

“O nome dela era Margarida. Não era lá um nome de musa”. Como não?Margarida, a musa de Fausto, do clássico de Goethe!

Mas musa à parte – à parte pra poder falar só dela - difícil achar um nariz mais esculpido a mão do que o nariz no rosto da Barbie, né?!

=]

Victor Athayde disse...

Fausto não é la um cara tão confiável. A musa dele é Mephistopheles, isso sim.
A Barbie tem nariz de Petcvick, isso sim.

gilson leao disse...

agora entendi, Seraphião é da tribo de Jurdião, o Seraphim.......
Gostei do texto.
Alíás Gil havia lido e recomendado....

erickaduda disse...

história que se lê e solta a clássica no final: putz! Mas o melhor foi a música a calhar, simplesmente fantástica!